Deficiência de ferro sem anemia: uma causa de fadiga frequentemente esquecida
A deficiência de ferro é a carência nutricional mais prevalente a nível mundial e continua a ser uma causa frequente de fadiga, diminuição do desempenho físico e cognitivo e redução da qualidade de vida. Apesar de ser frequentemente associada à anemia, a realidade é que muitas pessoas apresentam deficiência de ferro durante meses ou anos antes de desenvolverem alterações na hemoglobina.
Nos últimos anos, a investigação científica tem demonstrado que a quantidade de ferro ingerida é apenas uma parte da equação. A capacidade do organismo para absorver e utilizar esse ferro pode ser igualmente determinante para manter reservas adequadas e prevenir sintomas.
Uma revisão científica recente trouxe novamente este tema para o centro da discussão, destacando as diferenças entre o ferro heme e o ferro não-heme e o impacto que estas formas podem ter na biodisponibilidade do mineral.
Porque precisamos de ferro?
O ferro é um micronutriente essencial para a vida. A sua função mais conhecida é participar na formação da hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigénio dos pulmões para os tecidos.
Contudo, as suas funções vão muito além disso.
O ferro participa na produção de energia celular, na síntese de ADN, no metabolismo muscular, na função imunológica e em múltiplos processos neurológicos. Quando as reservas diminuem, vários destes sistemas podem ser afetados, mesmo antes do aparecimento de anemia.
É por isso que pessoas com níveis baixos de ferro podem apresentar sintomas como:
- Fadiga persistente;
- Diminuição da concentração e da memória;
- Menor rendimento físico;
- Sensação de falta de energia;
- Dores de cabeça frequentes;
- Queda de cabelo;
- Unhas frágeis;
- Síndrome das pernas inquietas.
Deficiência de ferro não é sinónimo de anemia
Um dos conceitos mais importantes e, frequentemente mal compreendidos, é que deficiência de ferro e anemia ferropénica não são a mesma coisa.
A anemia representa uma fase mais avançada do processo.
Habitualmente, a evolução ocorre em três etapas:
1. Diminuição das reservas de ferro
Nesta fase ocorre redução da ferritina, que é a principal proteína de armazenamento de ferro. Os valores de hemoglobina permanecem normais.
2. Deficiência de ferro sem anemia
As reservas continuam a diminuir e o organismo começa a ter dificuldade em disponibilizar ferro para os tecidos. Apesar de a hemoglobina ainda estar dentro dos valores de referência, podem surgir sintomas relevantes.
3. Anemia ferropénica
Quando a disponibilidade de ferro se torna insuficiente para sustentar a produção normal de glóbulos vermelhos, a hemoglobina diminui e instala-se a anemia.
Esta distinção é clinicamente importante porque muitas pessoas sintomáticas apresentam ferritina baixa, mas hemoglobina normal. Se apenas for avaliado o hemograma, o diagnóstico pode passar despercebido.
O que é a ferritina?
A ferritina é considerada o melhor marcador das reservas corporais de ferro.
Pode ser imaginada como o "armazém" onde o organismo guarda ferro para utilização futura.
De forma geral:
- Ferritina baixa sugere diminuição das reservas;
- Ferritina muito baixa é altamente sugestiva de deficiência de ferro;
- Valores normais não excluem deficiência em situações de inflamação ou doença crónica.
Isto acontece porque a ferritina também funciona como proteína de fase aguda, podendo aumentar em contextos inflamatórios e mascarar uma deficiência subjacente.
Por essa razão, a interpretação dos resultados laboratoriais deve ser sempre feita de forma integrada e contextualizada.
Ferro heme e ferro não-heme: qual a diferença?
O ferro alimentar existe sob duas formas principais.
Ferro heme
Encontrado exclusivamente em alimentos de origem animal:
- Carne vermelha;
- Vísceras;
- Aves;
- Peixe;
- Marisco.
Nesta forma, o ferro encontra-se incorporado numa estrutura denominada grupo heme, semelhante à presente na hemoglobina.
Ferro não-heme
Encontrado em:
- Leguminosas;
- Cereais;
- Frutos secos;
- Sementes;
- Vegetais de folha verde;
- Alimentos fortificados;
- Grande parte dos suplementos convencionais.
Embora ambas as formas possam contribuir para satisfazer as necessidades diárias, existem diferenças importantes na absorção.
Porque é que o ferro heme é absorvido mais facilmente?
Segundo a revisão científica recentemente publicada, o ferro heme apresenta uma biodisponibilidade superior.
A biodisponibilidade corresponde à quantidade efetivamente absorvida e utilizada pelo organismo.
Na prática, isto significa que duas refeições contendo a mesma quantidade de ferro podem resultar em quantidades muito diferentes de ferro disponível para utilização biológica.
O ferro heme utiliza mecanismos específicos de absorção intestinal e tende a sofrer menos influência de fatores externos que dificultam a absorção do ferro não-heme.
O que interfere na absorção do ferro?
A absorção intestinal do ferro é um processo altamente regulado.
Diversos fatores podem reduzi-la:
Inibidores da absorção
- Fitatos presentes em cereais integrais e leguminosas;
- Polifenóis do chá e café;
- Alguns compostos vegetais;
- Elevadas quantidades de cálcio ingeridas simultaneamente.
Potenciadores da absorção
- Vitamina C;
- Ambiente gástrico ácido;
- Consumo simultâneo de proteínas animais.
O ferro heme parece ser menos afetado por estes fatores, o que ajuda a explicar a sua maior eficiência de absorção.
Porque é que algumas pessoas desenvolvem deficiência de ferro?
A deficiência de ferro raramente resulta apenas de ingestão insuficiente.
Na maioria dos casos existe uma combinação de fatores:
Aumento das necessidades
- Gravidez;
- Adolescência;
- Crescimento acelerado;
- Prática desportiva intensa.
Aumento das perdas
- Menstruações abundantes;
- Hemorragias digestivas;
- Doação frequente de sangue.
Diminuição da absorção
- Doença celíaca;
- Gastrite atrófica;
- Cirurgia bariátrica;
- Doença inflamatória intestinal;
- Utilização prolongada de determinados medicamentos.
Por isso, identificar a causa da deficiência é tão importante quanto corrigir os níveis laboratoriais.
E os suplementos de ferro?
Os suplementos são frequentemente necessários quando a alimentação isoladamente não consegue repor as reservas.
As formulações mais utilizadas incluem sais ferrosos, como sulfato ferroso, fumarato ferroso ou gluconato ferroso.
Apesar da eficácia, muitos doentes relatam:
- Náuseas;
- Dor abdominal;
- Obstipação;
- Diarreia;
- Desconforto gastrointestinal.
Existem suplementos formulados com ferro heme, normalmente derivados de hemoglobina bovina purificada ou de outras fontes animais. São muito menos comuns na Europa do que os suplementos tradicionais.
A principal vantagem teórica é que o ferro heme utiliza vias de absorção diferentes e é menos afetado por fatores alimentares que reduzem a absorção do ferro não-heme, como fitatos, cálcio, chá ou café.
Contudo, existem alguns pontos importantes:
- A evidência clínica ainda é mais limitada do que para os sais ferrosos tradicionais.
- O custo tende a ser superior.
- Não são adequados para vegetarianos ou veganos.
- Nem sempre fornecem doses elevadas de ferro elementar.
As recomendações das principais sociedades científicas continuam a basear-se sobretudo nos suplementos de ferro não-heme, porque é sobre eles que existe a maior quantidade de estudos clínicos e experiência acumulada.
Em suma, quando falamos de ferro, não devemos olhar apenas para a quantidade presente nos alimentos ou nos suplementos.
A verdadeira questão é quanto desse ferro chega efetivamente à circulação e pode ser utilizado pelo organismo.
Embora a maioria dos suplementos de ferro disponíveis no mercado contenha ferro não-heme, existem formulações à base de ferro heme que podem apresentar vantagens em termos de biodisponibilidade. Contudo, são necessários mais estudos para determinar em que situações estas formulações oferecem benefícios clínicos relevantes face aos suplementos convencionais.
Bibliografia:
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